- Atrasos sempre foram um problema com nossos guitarristas…
Foi com essa frase que Ron me colocou no lugar. Estavam todos prontos, menos eu. Logo eu, sempre tão metódico, pontual e perfeccionista. Logo eu que organizava meus vinis em ordem alfabética na estante. Mas naquele dia, e somente naquele dia, meu atraso tinha uma boa explicação: era tudo novo pra mim. Eu não estava acostumado à rotina de um rock star. Eu não estava preparado para ser um rock star. Desde que Keith se machucou e avisou que tiraria algumas semanas de licença, mal tive tempo de entender a situação. Eu estava com a minha banda num show como outro qualquer, e simplesmente Charlie Watts estava me olhando. Duas semanas depois, eu estava em um prédio londrino acertando alguns detalhes. Três semanas depois daquele show, eu estou aqui. No camarim, tentando abotoar essa camisa estampada e falar com os repórteres ao mesmo tempo.
Ouço alguém bater na porta, e percebo que a hora chegou. Me sinto um pouco usado, mas não reclamo. Desde que os últimos 2 álbuns da banda não foram um sucesso comercial, muito se falou que eles precisavam de sangue novo, se reinventar, se reencontrar, e todos esse lugares-comuns. Chamar um garoto desconhecido como eu poderia ser uma boa solução. Proporcionar à alguém totalmente fora dessa realidade o gostinho de ser uma celebridade instantânea poderia dar à banda um status de “generosos”, “boa-praça”, ou o rótulo que você achar mais conveniente. Com o Apollo Creed deu certo, porque não com os Rolling Stones?

Saí do camarim, peguei minha palheta de estimação, minha companheira de anos e anos de rock nights, e vejo Mick na beirada da escada que leva ao palco. Ele faz um gesto com a mão para que eu me aproxime. Quando chego perto, percebo que Ron está próximo.
- Essa pode ser a melhor ou a pior noite da sua vida. – disse Ron
- Podes crer… – completa Mick.
Dou um suspiro bem fundo, quase tendo um êxtase de ansiedade e euforia. Ron se compadeceu de mim e tratou de me acalmar:
- Garoto, o Charlie disse que notou algo em você naquele bar, por isso nos convenceu a te dar essa chance. Você já fez alguns show com sua banda, não é?
- Sim
- Então pode ter certeza que não é diferente. Você liga a guitarra, toca, acena para o público, grita alguma coisa no microfone, sorri para as cameras. Não é tão complicado quanto parece.
Mick tomou a frente da conversa e foi mais frio:
- Se algo sair errado, fale com o Ron pois eu estarei à frente do palco. Não fale palavrões nem faça sinais obcenos. De resto, é só seguir a gente.
Charlie já estava acomodado na bateria. A platéia já fazia seu coro, e nós subimos no palco. Foram 90 minutos de som, gritos, lágrimas, e realização do sonho de um garoto. Um garoto que cresceu na dúvida se gostava mais de Stones ou de Beatles. Um garoto que sabia que aqueles momentos teriam um fim programado, e por isso mesmo, precisou aproveitar o máximo que pode. Um garoto que viu o tio tocando violão e achou incrível como que aquelas cordas poderiam produzir som, e como apertar cada corda poderia produzir um som diferente. Uma noite que não devia terminar.
Escrito por Wallace Souza
Olha que foda: estava pesquisando algumas coisas para postar sobre o Syd Barret, já que essa semana ele teria completado 62 anos, e descubro que o cara tem um
Escrito por Wallace Souza
Escrito por Wallace Souza